sábado, 4 de abril de 2015

Vários

Leia com atenção o trecho a seguir para responder às questões de 1 a 3

            Desinformar, ensina o dicionário, "é informar mal; fornecer informações inverídicas".
Empregada como arma de guerra, a desinformação significa trabalhar a opinião pública de modo que esta, chamada a decidir sobre ideia, pessoa ou evento, ajuíze conforme o querer do desinformador.
            Não se trata de novidade. É recurso tão antigo quanto os conflitos. Porém, no Brasil, raramente foi tão hábil e eficientemente engendrada e utilizada como em 1932 em favor do Governo Provisório. Contribuiu para circunscrever o âmbito da Revolução Constitucionalista, inamistá-la (hostilizar) em várias áreas do país e para favorecer a mobilização destinada a enfrentá-la.
            Gente simples, recrutada ao norte e ao sul, entrou na luta acreditando combater estrangeiros que tendo se apoderado do controle econômico de S. Paulo, buscavam empalmar(tomar posse ou domínio de) o mando político. Isso fariam ajudados por alguns paulistas antigos, egoístas, rancorosos, vingativos, intencionando fazer do Estado um país independente, hostil(que manifesta inimizada, própria de inimigo) às áreas e às classes empobrecidas do Brasil. Os intrusos e os separatistas DISFARÇARIAM seus propósitos com o reclamar convocação de assembleia constituinte. Uns e outros deveriam ser combatidos sem piedade.
(Hernâni Donato. "Desinformação, arma de guerra em 1932", DO Leitura, São Paulo, 11(33), junho de 1933").

1. Quem são, segundo o Governo Provisório, os dois inimigos a serem combatidos?
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2. O que significa, e a quem se refere, no contexto, a expressão ISSO FARIAM?
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3. Dada a tese do autor de que o Governo Provisório desinformava, como devem ser interpretadas as ocorrências do futuro do pretérito, especialmente FARIAM e DISFARÇARIAM?
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Leia atentamente o seguinte poema de Ângelo de Lima para responder às questões de 4 a 5.

1          Para-me de repente o pensamento
2          Como que de repente refreado(1)
3          Na doida correria em que levado
4          Ia em busca da paz do esquecimento

5          Para surpreso, escrutador,(2) atento
6          Como para um cavalo alucinado
7          Ante um abismo súbito rasgado.
8          Para e fica, e demora-se um momento.
9          Para e fica, na doida correria
10        Para à beira do abismo, e se demora.
11        E mergulha na noite escura e fria
12        Um olhar de aço, que essa noite explora.
13        Mas a espora da dor seu flanco(3) estria,
14        E ele galga e prossegue sob a espora...
("Revista Sudoeste", Lisboa N.3, 1935, p.4)
1.contido, reprimido; 2. investigador, pesquisador; 3. cada um dos lados do corpo, dos quadris aos ombros.

4. Nesse poema, opõem-se o movimento desenfreado para a frente e o refreamento. Identifique um verso em que esses dois temas se encontrem reunidos.
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5.Explique por que o pensamento nesse poema, é comparado a um "cavalo alucinado". Com base nisso, identifique o "abismo" à beira do qual o pensamento pára e se demora.
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Leia o poema a seguir e responda às questões de 6 a 8

            Maria Diamba
1          Para não apanhar mais
2          falou que sabia fazer bolos:
3          virou cozinha.
4          Foi outras coisas para que tinha jeito.
5          Não falou mais:
6          Viram que sabia fazer tudo,
7          até molecas para a Casa-Grande.
8          Depois falou ,
9          diante da ventania
10        que vinha do Sudão;
11        falou que queria fugir
12        dos senhores e das judiarias deste mundo
13        para o sumidouro.
(Jorge de Lima, "Poemas Negros")
                       
6. Descreva a personagem a que se refere o poema. Cite algumas passagens do poema que justifiquem sua resposta.
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7. O poema narra a história desta personagem. Que palavra(s) marca(m) no poema a evolução desta história?
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8. Os versos 8 e 10 apresentam duas novas atitudes da personagem diante de si e da história. Identifique-as.
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Leia o poema a seguir para responder às questões de 09 a 11

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou.
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via.
Ele era fixo, eu, o que vou.
Se morrer, não falto, e ninguém diria:
Desde ontem a cidade mudou.

(Álvaro de Campos,"Poesias")

09. Identifique duas marcas formais que, no poema acima, contribuem para criar a idéia de monotonia.
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10. Do ponto de vista do "eu lírico", que fato quebra essa monotonia?
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11. Qual a consequência, para o "eu lírico", da quebra dessa monotonia? Justifique sua resposta.
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Texto para as questões de 12 a 15
São Paulo Amarelece

            A cidade de São Paulo está com luzes novas. Volta ao passado com lâmpadas amarelas de província. São Paulo não podia parar. A vertigem do crescimento nos enobrecia. Que progresso era esse? Que nos prometiam os arranha-céus? Que nos prometiam esses dedos de Deus, cidades imensas, luzes e janelas douradas?
            Hoje essas massas de ferro e cimento nos provocam romantismo quando as luzes as mancham com tintas rubras no asfalto molhado, com um rasgo de azul sobre uma vitrine. Por que o coração se enche de ardor quando vagamos pela cidade vazia, se sabemos que de perto crueldade?
            É o sonho do século 19 que não queremos que se esvaneça (desaparecer, extinguir-se). Queremos manter a ideia de que o futuro nos salvará da solidão. As cidades são o desenho do sonho que tivemos de que o mundo nos acolheria. As cidades eram o nosso orgulho e SP foi a metáfora juscelinista da chegada em algum lugar.
            Mas a cidade que visava nos proteger começou a nos atacar como uma fera viva. Nela viramos vultos em fotografias. No entanto, basta tirar a brutal luz de mercúrio que corremos todos a amar a paisagem. Por que tal pressa em esquecer o mal que nos fazia?
            A cidade talvez seja mesmo um ato de amor e de busca. Talvez a cidade, mesmo fria, mesmo navalha nua, mesmo corredores de lâmina, seja o monumento abandonado de nosso antigo sonho de solidariedade.
            A cidade parece uma árvore. Tem da árvore o mesmo gesto de buscar luz. Quando vemos uma cidade como a nossa, sem natureza, sem mar, sem céu, mesmo assim temos secreto orgulho de construtores.
            Talvez seja isto: vendo a cidade, sentimos carinho por nossa estúpida aventura humana, por esta gratuidade a que fomos condenados. Isto explica o que acontece em nosso coração quando cruzamos a Ipiranga com a Av. São João.
(Arnaldo Jabor, "Folha de S. Paulo", 18/08/91, p. 1-1)

           
12. Analise o modo como o autor reage ante as dificuldades que encontra para viver na grande cidade.
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13.Nos quatro primeiros parágrafos de seu texto, Arnaldo Jabor refere-se a uma mudança no aspecto físico da cidade que, segundo ele, provoca uma mudança no modo de seus habitantes sentirem a própria cidade. Partindo desta observação, responda:

a) a que mudança física se refere o autor?
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b) que tipo de reação afetiva provoca essa mudança nas pessoas?
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14.Em sua crônica, Arnaldo Jabor não crê expressar apenas uma opinião pessoal, mas a dos demais cidadãos. De que recurso, de ordem gramatical e estilística, se serve o autor para causar essa impressão no leitor? Exemplifique sua resposta com pelo menos uma passagem do texto.
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"Queremos manter a idéia de que o futuro nos salvará da solidão."
"Talvez a cidade (...) seja o monumento abandonado de nosso antigo sonho de solidariedade."
15.Jabor focaliza um aspecto da vida na grande cidade. Comente a esse respeito, identificando o problema levantado pelo autor.
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Texto para a questões  16.

            Na luta contra a Aids defrontam-se os rigorosos, que exigem respeito aos princípios preventivos básicos e corretos, contra os complacentes(1). Aqueles exaltam o valor do relacionamento sexual responsável, o combate efetivo à toxicomania e a adequada seleção de doadores de sangue. Os outros preconizam(2) coisas mais agradáveis, como por exemplo o emprego desbragado(3) e a doação gratuita de camisinha, a distribuição de seringas com agulhas a drogados e a perigosa, além de problemática, lavagem delas com água sanitária. Agora, os permissivos(4), que não estão obtendo qualquer vitória, pois a doença afigura-se cada vez mais difundida, ganharam novo aliado: o Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN), que concordou com o fornecimento de seringas e agulhas, sem ônus(5), aos viciados. Portanto, esse órgão público associou ilegalidade à complacência.
(VICENTE AMATO NETO, médico infectologista, Painel do Leitor, Folha de S. Paulo, 18/09/94)
1. gentil, amável, benevolente; 2. recomendar, preconizar, aconselhar; 3.aquele que se comporta de maneira a agredir à descência; 4.que permite; 5.carga, peso, encargo.

16.A carta acima fez referência a uma proposta polêmica do CONFEN (Conselho Federal de Entorpecentes): o fornecimento gratuito de seringas e agulhas a viciados em drogas injetáveis.
a) Caso você concorde com a proposta da CONFEN, escreva uma carta ao Dr. Vicente Amato Neto, procurando convencê-lo de que ela pode de fato contribuir para evitar a disseminação do vírus da Aids.

b) Caso você discorde dessa proposta, escreva uma carta ao presidente da CONFEN, procurando convencê-lo de que ela não deve ser posta em prática.
Ao desenvolver sua redação, além de expor suas opiniões, você deverá necessariamente levar em consideração a coletânea a segui,rTextos para as questões de 01 a 1.         Graças a uma legislação liberal, a maior cidade Suíça (Zurique) criou uma área especial - Letten, uma estação de trens desativada - onde é possível comprar e usar heroína emplena luz do dia. (...) Desde 1992, quando os junkies* se mudaram da Platzpitz, uma praça no centro da cidade, para Letten, o consumo não para de crescer - um fato atestado pelas 15.000 seringas descartáveis distribuídas diariamente na velha estação. A única vantagem é que a distribuição reduziu o ritmo de disseminação da Aids.
[*junkies: termo inglês que significa drogados.]


(O pico à luz do dia, VEJA,

2.         Em nosso país, exige-se o diploma para que alguém aplique injeção endovenosa,(que se aplica no interior da veia) porque pessoas não treinadas criam perigosas situações para si ou para outros, ao realizar inoculações(incerir). Fornecer agulhas e seringas a pessoas não habilitadas para seu uso é como dar ucarro a menores de idade, ou uma arma a quem não sabe utilizá-la. Isso é pelo menos indesejável para a sociedade, além de ser ilegal. No caso, a ilegalidade se tornaria incontrolável, pois o distribuidor dos medicamentos e agulhas seria o próprio Estado.
A proposta de um programa como esse não leva em conta a realidade, causando desperdício de recursos precários. Tais propostas são feitas por pessoas que nunca viram, de fato, como funciona uma "roda", provavelmente dirigentes sem formação médica e sem assessoria adequada (sociológica etc). Não é difícil adivinhar que se trata de um plano que beneficia vendedores de agulhas e seringas e burocratas de escritório, não tendo qualquer consequência para a epidemia da Aids.
[*roda: prática, comum entre drogados, que consiste no uso de uma mesma seringa por várias pessoas.]
(Adaptação de VICENTE AMATO NETO & JACYR PASTERNAK, 'A doação de seringas e agulhas a drogados', O ESTADO DE S. PAULO, 05/09/94)

3.         Drogas injetáveis em Nova York, A distribuição de seringas para usuários de drogas pode diminuir pela metade a taxa de propagação do vírus da Aids neste grupo de risco. A conclusão é de uma pesquisa realizada na Universidade John Hopkins, de Nova York, que envolveu 22 mil pessoas em vários bairros nova-iorquinos.(...)
            Antes do programa, uma seringa era emprestada, alugada ou vendida em média 16 vezes nos bairros onde foi feito o controle. O programa reduziu este número em quatro vezes.
            Existem 200 mil usuários de metade deles infectados com o vírus da Aids.
(Programa corta em 50% taxa de infecção de HIV, "Folha de S. Paulo", 02/11/94)

4.         [No futuro, pagaremos] caro pela ignorância e irresponsabilidade do passado. Acharemos inacreditável não havermos percebido em tempo, por exemplo, que o vírus da Aids, presente na seringa usada pelo adolescente da periferia para viajar ao paraíso por alguns instantes, infecta as mocinhas da favela, os travestis na cadeia, as garotas da boate, o meninão esperto, a menina ingênua, o senhor enrustido, a mãe de família e se espalha para a multidão de gente pobre, sem instrução de higiene. Haverá milhões de pessoas com Aids, dependendo de tratamentos caros e assistência permanente. (...)
(DRAUZIO VARELLA, 'A era dos genes', "Veja 25 anos" - Reflexões para o futuro, 1993)

01.As duas cartas acima são de leitores expressando suas opiniões sobre o episódio de agressão ao governador de São Paulo em manifestação de professores em greve.  O veículo de publicação de cartas - o jornal - impõe um limite de espaço para os textos.
Em função desse limite de espaço, os dois textos apresentam como traço comum:
a) combate a pontos de vista de outros leitores
b) construção de comprovações por meio de *silogismos
c) expressão de opinião sem fundamentos desenvolvidos
d) escolha de assunto segundo o interesse do editor do jornal
*raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições, ditas premissas, das quais, por inferência, se obtém necessariamente uma terceira, chamada conclusão (p.ex.: "todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais")

02.Em geral, esse tipo de carta no jornal busca convencer os leitores de um dado ponto de vista.
Por causa dessa intenção, é possível verificar que ambas as cartas transcritas se caracterizam por:
a) finalizar com perguntas *retóricas para expressar sua argumentação
b) iniciar com considerações gerais para contestar opiniões muito difundidas
c) utilizar orações de estruturação negativa para defender a posição e outros
d) empregar estruturas de repetição para reforçar ideias centrais da argumentação
* a arte de bem argumentar; arte da palavra

03.O fragmento que expõe a tese de cada uma das cartas, respectivamente, pode ser identificado em:
a) " conhecemos nossos governantes" / "Quando o ministro vai achar que foram transpostos os limites do tolerável?"
b) " não conhecíamos ainda nossos manifestantes" / "a última manifestação transpusera os limites do tolerável"
c) "Nada justifica a agressão física" / "Mas os demais cidadãos brasileiros não merecem?"
d) "É esse o papel de um educador?" / "Primeiro foi uma paulada no governador de São Paulo"

04.Pela leitura da carta de Arthur Costa da Silva, é possível afirmar que as perguntas nela presente têm o seguinte significado:
a) questionar as atitudes dos políticos brasileiros
b) apontar falhas no discurso de autoridades brasileiras
c) propor uma reflexão acerca da atitude dos agressores
d) mostrar solidariedade ao comportamento dos manifestantes

(...) "Num país como o Brasil, onde se costumava identificar superioridade intelectual e literária com *grandiloquência e requinte gramatical, a crônica operou milagres de simplificação e naturalidade, que atingiram o ponto máximo nos nossos dias."
(Antonio Cândido)
* modo afetado de se expressar, que abusa de palavras pomposas, rebuscadas
           
05.Assinale a alternativa correta.
a) O autor afirma ser o Brasil um país culto, que despreza a crônica pela sua simplicidade.
b) Segundo o texto, os leitores convivem com naturalidade com o vocabulário opulento e a sintaxe rebuscada dos autores clássicos.
c) De acordo com o texto, a crônica ajudou o leitor brasileiro a deixar de considerar superior uma obra literária apenas pela erudição do vocabulário e a complexidade gramatical.
d) Depreende-se do texto que a crônica é um gênero literário "menor", devido à sua simplicidade.
e) A partir do texto, conclui-se que a crônica é um mal para a literatura: sendo simples, afasta o leitor das obras sérias.

Quem dá as condições para a escolha? Todos podem realmente escolher o que desejarem? O nordestino, vítima da seca e do proprietário das terras, realmente "escolhe" vir para o sul do país? Escolhe viver na favela? O peão metalúrgico "escolheu" livremente fazer horas-extras depois de 12 horas de trabalho? A menina grávida que teme as sanções da família e da sociedade "escolhe" fazer um aborto?
(Marilena Chauí)

I - "Todos os homens são livres por natureza e (...) exprimem essa liberdade pela capacidade de escolher entre coisas ou entre situações dadas.
II - "A definição da liberdade como igual direito à escolha é a IDEIA burguesa da liberdade e não a realidade histórico-social da liberdade."
III - "A ideologia é o resultado da luta de classes e (...) tem por função esconder a existência dessa luta."
IV - "Os homens (...) são desiguais por natureza e por talento, (...) ou por desejo próprio, isto é, os que honestamente trabalham enriquecem e os preguiçosos empobrecem."

06.Aponte a alternativa que indica ondecoerência de ponto de vista entre os trechos numerados e o texto anterior.
a) I e II.  b) II e III.         c) III e IV.         d) apenas a III.         e) apenas a IV.

TRAGÉDIA BRASILEIRA (Manuel Bandeira)

            Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
            Conheceu Maria Elvira na Lapa - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
            Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo o que ela queria.
            Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
            Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
            Viveram três anos assim.
            Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
            Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato. Inválidos...
            Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

07.Aponte a alternativa correta em relação ao texto.
a) Há um sujeito que, em disjunção com as necessidades básicas da vida, deixa-se manipular "de corpo e alma" por outro, que detém o poder.
b) Há um sujeito que, confundindo as relações de afeto com as relações de propriedade, tem o seu crime apresentado sem atenuantes no último verso.
c) Há um sujeito que, desesperado pela falta de amor, não poupou esforços nem perdão para aquela que teria sido sua eleita, se tivesse tido a competência para amar.
d) Há um sujeito que, por ser verdadeiramente generoso, amante e nem um pouco egoísta, retarda a sanção ao traidor.
e) Há um sujeito que pode ter a imagem trocada no último verso, por meio da leveza e do lirismo sugeridos pela roupa com que é apresentado.

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Carlos Drummond de Andrade)

I - A repetição, nesse poema, é expediente, de expressividade, pois enfatiza o obstáculo.
II - O obstáculo configura-se maior que o próprio poeta, ferindo-lhe a vista pelo cansaço.
III - A repetição, nesse poema, constitui uma redundância viciosa, isto é, não traz nenhuma informação nova.
IV - Por meio de cada repetição, o poeta vai-se mostrando vencido pelo obstáculo.
V - O cansaço é tamanho, que se afrouxa a censura gramatical e justifica-se a troca do verbo "haver" pelo "ter" no sentido de "existir".
VI - "Uma pedra", termo com a função sintática de sujeito, pela exagerada repetição, desqualifica o texto, que acaba produzindo o efeito de brincadeira absurda.

08.Aponte a alternativa correta sobre a relação do texto com as afirmações anteriores.
a) Estão corretas apenas as afirmações I, II, IV e V.
b) Está correta apenas a afirmação III.
c) Está correta apenas a afirmação VI.
d) Estão corretas apenas as afirmações IV e VI.
e) Estão corretas todas as afirmações.

Texto para as questões de 9 a 14
A FUGA (Fernando Sabino)

            Mal colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.
            - Para com esse barulho, meu filho - falou, sem se voltar.
            Com três anos, sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava empurrando uma cadeira.
            - Pois então pára de empurrar a cadeira.
            - Eu vou embora - foi a resposta.
            Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano, era sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? a mãe mais tarde irá saber), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.
            A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
            - Viu um menino saindo desta casa? - gritou para o operário que descansava diante da obra, do outro lado da rua, sentado no meio-fio.
            - Saiu agora mesmo com uma trouxinha - informou ele.
            Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro.
            A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e - saíra de casa prevenido - uma moeda de um cruzeiro. Chamou-o mas ele apertou o passinho e abriu a correr em direção à avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia à distância.
            - Meu filho, cuidado!
            O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto.
            O menino, assustado arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como um animalzinho:
            - Que susto você me passou, meu filho - e apertava-o contra o peito comovido.
            - Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.
            Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:
            - Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.
            - Me larga. Eu quero ir embora.
            Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala - tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.
            - Fique quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.
            - Fico, mas vou empurrar esta cadeira.
            E o barulho recomeçou.

09. O título do texto introduz, como ponto central:
a) uma dificuldade.     b) uma exigência.    c) um relacionamento.   d) uma ação. e) um preconceito.

10.O texto tem como narrador:
a) um observador que narra em terceira pessoa.    b) um narrador-personagem.
c) um narrador-onisciente.                                    d) um observador que narra em primeira pessoa.
e) um personagem que se analisa e recorda.

11.A palavra "Fuga" pode ser igualmente empregada em diferentes situações. Qual delas corresponde à do texto?
a) fuga no tempo.   b) fuga na literatura.    c) fuga no sonho.  d) fuga no espaço.   e) n.d.a.

12.As palavras entre travessões, "saíra de casa prevenido", revela, no texto, um narrador:
a) preocupado.       b) irônico.        c) despreocupado.        d) alegre.        e) triste.

13. "...juntava ação às palavras" significa:
a) falava: abrAÇÃO, aviAÇÃO, corAÇÃO.
b) catava AÇÃO para pôr na trouxinha.
c) misturava o final ação com outras palavras.
d) agia ao mesmo tempo que falava.
e) não sabia formar palavras.

14. As frases "...não estava fazendo barulho, estava empurrando a cadeira" e "...onde diabo meteram a chave da despensa?" correspondem, respectivamente a:
a) discurso direto e discurso indireto.
b) discurso indireto e discurso direto.
c) discurso direto e discurso direto.
d) discurso indireto e discurso indireto.
e) n.d.a.

Quando eu estava na escola médica de Boston, tive a sorte de fazer parte de um pequeno grupo de estudantes que se reuniu informalmente com um célebre cardiologista, homem na casa dos oitenta anos. Num dado momento, um dos estudantes comentou com certa apreensão que as doenças cardíacas eram a causa número um de morte nos Estados Unidos. O velho professor pensou sobre isso por alguns instantes e depois replicou: "O que é que você preferia ter como causa número um de morte?"
            [David Ehrenfeld, "A Arrogância do Humanismo"]

15.A réplica do sutil professor ao estudante sugere que
a) a especialização do saber aprimora a visão de conjunto.
b) o avanço tecnológico nem sempre implica humanização.
c) a fixação no poder da ciência faz esquecer seus limites.
d) a modernização apressada costuma obrigar a recuos.
e) a pesquisa perseverante contorna os maiores obstáculos.

Por não sabermos quando morreremos,
achamos que a vida é inacabável
Mas algumas coisas acontecem de vez em quando.
Poucas, aliás.
Quantas vezes você vai se lembrar de uma certa
tarde da infância, uma tarde que faz tão parte
de você, que não imagina a sua vida sem ela?
Mais quatro ou cinco vezes.
Possivelmente, nem isso.
Mais quantas vezes vai ver a lua cheia?
Umas vinte, talvez.
Ainda assim, tudo parece ilimitado.
(Bernardo Bertolucci)

16.De acordo com o texto:
a) o homem se desespera por não saber quando morrerá.
b) o mais importante na vida é ter boas lembranças.
c) uma única boa lembrança pode tornar a idéia da morte aceitável.
d) o homem jamais se conscientiza da brevidade da vida.
e) uma infância feliz faz pensar que a vida é ilimitada.

O homem é frívolo e preconceituoso porque sempre julga os outros apenas pelas aparências. É como ir ao mar e limitar-se a ficar boiando na superfície que, apesar de não oferecer perigos, é cheia de detritos. Para alcançar os mais lindos corais e as mais raras espécies marinhas, será preciso vencer o medo e lançar-se às profundezas.

17.De acordo com o texto:
a) a falta de respeito à natureza por parte do homem faz dele um ser desprovido de bons sentimentos.
b) as relações humanas seriam mais verdadeiras e valiosas, se os homens buscassem sempre a essência de seus semelhantes.
c) o mergulhador é elitista porque não desfruta da praia como os demais.
d) a frivolidade e o preconceito transformam o homem em um ser solitário.
e) a frivolidade é a causa da atração dos seres humanos pelos corais.

Sábias são as pessoas que fazem suas próprias leis, quando sabem que estão com a razão.

18.De acordo com o texto:
a) as regras estabelecidas devem ser respeitadas.
b) as regras estabelecidas nunca devem ser respeitadas.
c) a sabedoria consiste em viver de acordo com as normas.
d) a sabedoria e a razão tornam as pessoas felizes.
e) a sabedoria consiste no bom senso e na liberdade.

Enquanto o isolamento se refere apenas ao terreno político da vida, a solidão refere-se à vida humana como um todo. O governo totalitário, como todas as tiranias, certamente não poderia existir sem destruir, através do isolamento dos homens, as suas capacidades políticas. Mas o domínio totalitário, como forma de governo, é novo no sentido de que não se contenta com esse isolamento e destrói também a vida privada. Baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o homem pode ter.
(Hannah Arendt)

19.Assinale a alternativa correta, de acordo com o texto.
a) O governo totalitário é exatamente igual a todas as tiranias.
b) O governo totalitário é a mais cruel das tiranias, porque, além de isolar o homem politicamente, também destrói sua vida privada.
c) O isolamento é pior do que a solidão.
d) Isolamento e solidão são sinônimos.
e) O isolamento é a mais desesperada experiência que o homem pode ter.

Leia este trecho do texto:
A engenharia genética poderá criar espécies de plantas e animais. Resta saber se as diferenças genéticas entre as populações humanas não podem intensificar-se e ser manipuladas para fins de suposta eugenia e predomínio racial, para não falarmos da criação de seres híbridos, com resultados imprevisíveis na bioesfera.

20.Nesse trecho, o recurso argumentativo utilizado consiste em
a) apresentação e explicação de conceitos.
b) contraste entre diferentes abordagens.
c) enumeração de fatos que se contradizem.
d) levantamento de hipótese e seus desdobramentos.